
Conexus: como projetar um espaço multifuncional com flexibilidade e acessibilidade
E se o mesmo espaço pudesse ser um ambiente de trabalho durante a semana e um salão de festas no fim de semana, sem perder a coerência em nenhum dos dois usos? Foi esse o desafio do Conexus, um projeto de espaço multifuncional desenvolvido pela arquiteta Angélica Picceli, do Studio Universalis. Neste estudo de caso, mostramos como as decisões foram tomadas e por que pensar a acessibilidade desde o início ampliou as possibilidades do projeto. O desafio de transformar um espaço de eventos em coworking O Conexus surgiu de uma demanda muito concreta do cliente. O proprietário já tinha um espaço utilizado para festas e eventos e queria transformá-lo em um ambiente que funcionasse como coworking nos dias úteis e continuasse podendo ser alugado para eventos particulares aos finais de semana. O objetivo era abrigar vários negócios e atividades diversas, sem abrir mão dos eventos que já faziam parte da vocação do lugar. “Projetar o Conexus foi, para mim, principalmente um exercício de entender como aquele espaço poderia funcionar de maneiras diferentes sem perder a coerência”, conta Angélica. A partir dessa necessidade, cada decisão passou a considerar pelo menos dois momentos de uso: a rotina de trabalho e a lógica dos eventos. Essa perspectiva orientou o processo de projeto e, em vez de pensar o coworking e o espaço de eventos como duas propostas independentes, era necessário considerar as necessidades de cada atividade e identificar soluções que permitissem alternar entre elas. Isso significava pensar em como os ambientes seriam utilizados durante a rotina de trabalho, quais adaptações seriam necessárias para os eventos e como preservar a funcionalidade do conjunto. Como projetar um espaço multifuncional, ambiente por ambiente? Em um projeto assim, a flexibilidade não pode ser pensada apenas como uma etapa final, ela é o resultado de olhar para cada ambiente e refletir sobre suas possibilidades de uso. A seguir, vamos discutir algumas das decisões que tomamos para cada espaço. A piscina como elemento central A piscina já fazia parte da estrutura e foi mantida como elemento central do projeto. Sua presença contribuía para a identidade do espaço, diferenciando o coworking de um ambiente corporativo convencional e aproximando as áreas de trabalho da natureza. Ao mesmo tempo, a estrutura oferecia outras possibilidades de utilização pois, além do lazer durante festas e eventos, poderia receber atividades aquáticas, como aulas de hidroginástica e natação. Essa decisão valorizou um dos aspectos mais importantes em projetos multifuncionais que é reconhecer o potencial dos elementos existentes e incorporá-los à nova proposta, em vez de partir necessariamente de uma transformação completa do imóvel. Uma cozinha gourmet para a rotina e para as festas A cozinha existente foi remodelada para funcionar como espaço gourmet, atendendo às necessidades de quem utilizaria o coworking e oferecendo suporte às atividades realizadas nos finais de semana. Durante os dias úteis, o ambiente poderia funcionar como espaço de apoio para a rotina dos profissionais, incluindo as pausas para o café. Em outras ocasiões, sua estrutura permitiria atender aos eventos e viabilizar atividades como aulas de culinária. Assim, conseguimos ampliar as possibilidades de uso do espaço sem exigir uma cozinha exclusiva para cada finalidade. Salas flexíveis com divisórias retráteis As salas de reunião, treinamento e estações de trabalho foram planejadas com dimensões bastante diversas e adaptáveis. Por meio de divisórias retráteis, os ambientes poderiam ser ampliados ou reduzidos conforme a necessidade. Essa solução permitiria, por exemplo, organizar salas menores para reuniões e atividades individuais durante a semana e modificar a configuração para acomodar grupos maiores em treinamentos ou eventos. A flexibilidade, nesse caso, não dependia de transformar completamente o espaço a cada mudança de uso, porque a própria organização dos ambientes permitiria diferentes configurações, facilitando a adaptação da estrutura ao longo do tempo. Design biofílico e área ajardinada A proposta do Conexus também considerou a relação entre os ambientes construídos e os elementos naturais presentes no local. A ampla área ajardinada e o espaço da piscina contribuem para criar uma atmosfera diferente daquela normalmente associada aos espaços corporativos. A integração com a natureza ajudava a estabelecer uma identidade para o coworking e a proporcionar uma experiência mais agradável para quem utilizasse o espaço para trabalhar ou participar de eventos. Por isso o projeto adotou o design biofílico, que aproxima os elementos da natureza do dia a dia do espaço. Essa escolha fazia parte da estratégia de organizar um espaço capaz de acolher atividades profissionais e momentos de lazer, mantendo uma linguagem arquitetônica coerente entre usos distintos. Acessibilidade em áreas privativas e coletivas Entre as decisões mais relevantes do projeto está a abordagem da acessibilidade. Diferentemente de situações em que essa preocupação aparece apenas depois da definição dos ambientes, no Conexus ela já fazia parte das demandas apresentadas pelo cliente. O proprietário tinha uma relação próxima com uma pessoa com deficiência que utiliza cadeira de rodas e queria que o espaço pudesse ser acessível. Inicialmente, sua preocupação estava concentrada nos banheiros, uma vez que esse costuma ser um dos primeiros ambientes associados à necessidade de adaptações. Mas, durante as conversas com nossa equipe, conseguimos ampliar as perspectivas para pensar a acessibilidade em todos os espaços. “Não adiantaria criar um banheiro acessível se uma pessoa não conseguisse chegar até ele com autonomia, participar das áreas coletivas, circular pelos ambientes ou utilizar o espaço de trabalho de maneira confortável”, explica Angélica. Para um espaço que seria coworking durante a semana e espaço de eventos nos fins de semana, a acessibilidade precisava acompanhar essa mesma lógica. Por isso, pensar a acessibilidade desde o início permite avaliar as necessidades de quem utilizará o espaço em suas diferentes configurações, em vez de tratar cada adaptação de maneira isolada. “Esse é um bom exemplo de como pensar acessibilidade desde o início pode ampliar as possibilidades de um projeto, inclusive quando estamos falando de espaços multifuncionais.” O caso do Conexus mostra como a participação do cliente e a orientação técnica do profissional da arquitetura podem ampliar o entendimento de uma demanda inicial. A preocupação com o banheiro foi o ponto








